O pensamento econômico e social de Calvino (excerto do livro de André Biéler)

Por André Biéler (excerto do livro, pp. 315 a 334)

2.3.2. A regeneração da sociedade: a Igreja

A redenção do mundo por Jesus Cristo se realiza então, no universo, como um todo e na natureza; o alvo primário desta ação de Deus, porém, é a restauração da humanidade. É este aspecto da obra de Cristo que desejamos considerar agora. O que significa essa restauração para a vida da sociedade?

A nova vida conferida ao homem por Cristo é uma vida comunitária

Não se pode conceber só do ponto de vista individual a redenção operada por Jesus Cristo. A nova vida que ela inaugura para o homem é, estritamente falando, impossível fora da vida comunitária, como já o havemos assinalado anteriormente. A vida em Cristo é, por definição, uma vida social. E a parte da sociedade tocada por esta renovação se chama a igreja. Não seria excessivo conceber em nossa celebração que Deus tem seus eleitos, se não compreendêssemos ao mesmo tempo uma unidade da igreja tal, que estejamos persuadidos de que nela estamos realmente enquadrados. Se não estamos aliados com todos os outros membros sob o cabeça comum, que é Jesus Cristo, não podemos ter esperança alguma da herança futura [1].

Embora sendo uma em Jesus Cristo, mercê de sua comunhão com ele, sofre a igreja aqui neste mundo as inexoráveis consequências do pecado de seus membros que lhe desfiguram a face. Assim como o indivíduo reconciliado com Deus está em plena posse da nova vida, bem que não se manifeste ela senão parcialmente neste mundo, também a igreja, verdadeiro que, até o dia da vinda definitiva do Reino de Deus, mascara as qualidades e os atributos que sua cabeça comunica a cada um de seus membros.

Não impede ele, todavia, que esta igreja invisível aqui se expresse obrigatoriamente mediante uma comunidade visível que, embora imperfeita, dá já neste mundo alguns sinais de sua existência de Igreja espiritual.

A igreja constitui entre os homens uma sociedade nova, uma comunidade no seio da qual as relações humanas originais são restauradas por Jesus Cristo: por meio desta comunidade tende a igreja à restauração parcial da sociedade humana autêntica. A comunhão dos santos … exprime muito bem a qualidade da igreja; como se fosse dito que os santos são congregados à sociedade de Cristo sob tal condição, que devam mutuamente comunicar entre si todos os dons que lhes são conferidos por Deus. Contudo, nem por isso impedida é a diversidade das graças… [2].

Já que é a igreja de Jesus Cristo o centro ativo da restauração da humanidade, sua renovação repercute no mundo inteiro e se comunica finalmente a toda a sociedade[3]. De tal natureza é o Reino de Cristo que cresce todos os dias e aumenta mais e mais; entretanto, não é ainda perfeito, e não o será antes do dia final do Juízo. Desse modo, verdadeiros são um e outro, a saber, que desde agora todas as coisas estão sujeitas a Cristo e, todavia, que esta sujeição não será completa até o dia da ressurreição, pois que será perfeito então o que não está agora senão apenas começando [4] [5].

Na comunidade cristã as relações sociais naturais o são na perspectiva da restauração

A obra de regeneração realizada por Jesus Cristo manifesta-se no aparecimento de novas relações sociais entre os homens. É na igreja que a ordem primitiva da sociedade, tal qual a havia Deus estabelecido, tende a ser restaurada [6].

O Senhor restabelece entre os membros do seu corpo a comunhão que existia entre os homens antes que o pecado a viesse abolir. Sem suprimir as distinções de sexo, de funções sociais, de língua e raças, elimina-lhes o caráter segregador que o pecado lhes confere.

Quando a igreja de Jesus Cristo deixa seu Senhor nela agir, então não conhece mais as ruturas causadas pelas diferenças sociológicas no restante da sociedade. “Não há nem judeu nem grego, não há nem servo nem livre, não há nem macho nem fêmea: sois todos um em Jesus Cristo”. O sentido é que as coisas externas não vêm aqui em consideração e a nada servem; e por esta razão, de qualquer nação ou condição que se seja, é-se um; e a circuncisão não é mais do que o sexo ou qualquer qualidade civil. Por quê? Porque Cristo faz a todos um. Consequentemente, por mais diversas que as outras coisas sejam em cada um daqueles que vêm ao Filho, Cristo só, no entanto, é suficiente para uni-los todos, Em razão disso diz o Apóstolo: “Vós sois todos um”, significando por isso que a diferença está afastada … (que o termo grego seja tomado pelos gentios, como espécie para o geral, isto é muito conhecido pelo uso comum da Escritura[7].

Assim é porque Jesus Cristo restabelece a solidariedade fundamental que unia os homens entre si antes da intervenção do pecado. É-nos necessário retornar a este princípio; que Deus quer que nós sejamos a ele semelhantes, uma vez que nos adotou por filhos e se nos há declarado por pai. Assim sempre foi, mas hoje, na pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo, derramou Deus as entranhas de sua misericórdia, como fala a Escritura; não pode ela, porém, expressar excessivamente a infinita bondade que Deus nos mostrou em nosso Senhor Jesus Cristo. Uma vez que assim é que Deus nos fez sentir mais do que nunca seu inestimável amor, tanto mais nos devemos bastante esforçar, de nossa parte, por segui-lo e por conformar-nos a seu exemplo[8].

Fim das divisões entre ricos e pobres; entre homens e mulheres; entre nacionalidades e entre raças diferentes

Na comunhão espiritual de Jesus Cristo não há mais diferença essencial entre ricos e pobres. O irmão de humilde condição se deve gloriar em sua alteza, pois que, se é ele agradável a Deus, tem ocasião e matéria bem suficiente de consolar-se em sua adoção, para que se não rale demasiado de sua condição humilde e um pouco árdua. “Ao contrário, glorie-se aquele que é rico em sua pequenez…”. Esta admoestação dirige-se a todos quantos têm alguma excelência, seja em honra, seja em nobreza, seja em outras coisas externas. Ele quer que esses se gloriem em sua pequenez e é a fim de que rebaixe ele este coração altivo que a prosperidade facilmente engendra. Cristo, que não é mestre senão dos pequenos, rebaixa todo o orgulho da carne mediante sua doutrina[9].

Na comunhão espiritual de Jesus Cristo não mais há diferenças essenciais entre homens e mulheres. Quanto à conjunção espiritual diante de Deus e no interior da consciência, Cristo é o cabeça do homem e da mulher sem nenhuma diferença … Não há nenhuma acepção de macho e de fêmea[10]… quanto ao Reino de Deus, que é espiritual, não há distinção nem diferença entre o homem e mulher[11].

Na comunhão espiritual de Jesus Cristo não mais há separações entre homens em função de sua nacionalidade. Em Jesus Cristo está restabelecida a grande solidariedade humana entre os povos e nações, como era de princípio. Deus mostra que ele tem solicitude em conservar todo o gênero humano de tal modo que não admite sejam os estrangeiros ou desconhecidos expostos à violência dos maus. Verdade é que conferiu privilegiada situação a seu povo em certas outras coisas, e até o pôs em um lugar à parte, mas porque a todos os homens sem exceção os criou à sua imagem, recebe-os em sua proteção e tutela, a fim de que ninguém lhes faça mal que não seja por isso castigado[12].

A consideração particular que todo cristão deve ter para com os estrangeiros se prende ao fato de que o homem, distanciado de sua pátria, é a imagem viva de toda criatura humana neste mundo. O homem é mero viajor sobre a terra, sem outros recursos que aqueles que provêm da graça de Deus. Fora desta graça está ele privado de todo socorro e de toda proteção. Não é sem causa que Deus se antepõe por escudo ou defensor, se injúria se faz aos estrangeiros. Visto que a ninguém tem eles que esteja pronto a incorrer no desagrado para sustê-los, estão expostos a todas as violências e extorsões dos maus, muito mais do que se estivessem munidos de qualquer recurso. A síntese revém a este ponto: que todos aqueles que são desprovidos de socorro e ajuda humana estão sob a salvaguarda de Deus para serem dele sustidos e garantidos, a fim de que todos quantos são endurecidos em fazer o mal, quando ninguém aqui os resiste sejam reprimidos e aprendam a temer a punição de que são aqui ameaçados… Recomenda ele os estrangeiros sob este titulo, por isso que aqueles que haviam sido estrangeiros no país do Egito dever-se-iam lembrar de sua condição antiga, para tratar mais humanamente as gentes forasteiras que vinham ao país de Canaã[13]. O estrangeiro tem valor de sinal na igreja, porque atesta ele a universalidade do amor de Deus, a supressão de toda discriminação no reencontro do próximo. É também de notar-se que Deus ordena amar os estrangeiros como a si cada um se ama, porque daí se evidencia que o nome de próximo se não restringe aos parentes e vizinhos, e aos que são de nossas relações, pelo contrário, estende-se a todo o gênero humano, como Jesus Cristo o mostra na pessoa do samaritano que, tendo compaixão de um homem desconhecido, o havia socorrido usando para com ele de humanidade, de que o judeu e o levita não se tinham dado conta – Lc 12.30 [14] [15].

Na igreja de Jesus Cristo, se supressa é a diferença entre nações, o mesmo acontece com a discriminação entre as raças. Abolida é a distinção que, sob a antiga aliança, das outras separava o povo judeu.

Uma vez que desfeita é a parede (Ef 2.14) e que por este meio a aliança de vida e de salvação é agora comum a uns e a outros, diz ele que se não devem considerar estranhos quantos participam da adoção divina… Depois que Cristo se manifestou aos homens, a aliança da vida eterna começou a ser comum a todos, igualmente. [16]

Igualmente supressa é na igreja de Jesus Cristo a separação entre classes sociais: “Nós somos todos batizados em um Espírito, para sermos um corpo… sejam servos, sejam livres; e somos todos abeberados de um mesmo Espírito”.  Expressou estas espécies para significar que a diversidade das condições ou estados não impede esta santa unidade que ele tanto recomenda. [17]

Restauração das relações de trabalho e das trocas econômicas

É particularmente no domínio das relações sociais do trabalho que a obra de regeneração de Jesus Cristo opera transformações. Se vivem em Jesus Cristo, superiores e subordinados entre si reencontram relações de autoridade sem opressão e de subordinação sem recriminação. Aquele que tem alguma superioridade sobre os outros deve abster-se de toda tirania, nós devemos ser humanos para com aqueles a quem Deus no-los sujeitou, de sorte a sobre eles não dominarmos em crueldade e deles não tirarmos tudo que pudermos; pelo contrário, lembremo-nos de tratá-los humanamente como nossos irmãos. E se bem que hoje não sejamos todos de uma linhagem como os judeus, suficiente nos deve bem ser que temos um pai e senhor no céu, como nos é demonstrado. Mediante nosso Senhor Jesus Cristo somos de tal maneira unidos que há uma fraternidade entre nós, fraternidade que se não pode violar sem renunciarmos à adoção que Deus de nós fez. E, assim, quem quer que deseja ser tido e havido entre os filhos de Deus, que se conduza amoravelmente para com todos aqueles sobre quem pode exercer autoridade e, depois, isto devemos ter em conta: que se desejamos obter misericórdia da parte de nosso Deus e sermos sustidos por sua graça, o mesmo nos lembremos de fazer para com aqueles que nos são sujeitos. [18]

A solidariedade que decorre da redenção de Jesus Cristo é igualmente restabelecida entre os homens em suas relações econômicas.

Assinalamos já que a ordem natural primitiva comportava relações justas entre cada membro da sociedade que com os outros trocava os produtos de seu trabalho. Mencionamos, a seguir, os efeitos do pecado sobre estas relações. A incredulidade dos homens leva-os a duvidar da bondade de Deus. Entregam-se eles, então, ao desperdício, à estocagem e à especulação sobre os dons que Deus lhes havia confiado para o uso e o bem de seus irmãos; rompem, assim, o equilíbrio econômico natural.

Jesus Cristo restabelece entre os cristãos, membros de sua igreja, justa redistribuição dos bens destinados a todos; esta repartição prefigura a restauração da ordem econômica no conjunto da sociedade. Voltaremos a falar desta matéria, em moldes mais minuciosos, no parágrafo consagrado à redistribuição das riquezas na igreja.

2.3.3. A sociedade provisória

Se a vida social primitiva (conforme ao desígnio de Deus) está parcialmente restabelecida na igreja fiel, isto não quer dizer que o esteja plenamente. Até a vinda definitiva do Reino de Deus, esta igreja permanece sujeita ao pecado. Não é ela senão um sinal entre os homens daquilo que Deus pretende executar totalmente, no universo inteiro, no fim dos tempos.

A restauração da ordem social, parcial na Igreja não se efetuará plenamente senão no Reino de Deus

Enquanto aguarda este acontecimento, a sociedade como um todo permanece corrompida. Se Deus simplesmente deixasse correrem as coisas, a destruição da vida social seria rápida e total. Tal, porém, não é a vontade de Deus. Como já o havemos indicado a propósito do homem individualmente, o pecado da criatura não prevaleceria sobre a intenção do amor do Criador. O mal não pode aniquilar a vontade de Deus de manter a sociedade e restaurá-la… Embora o mais das vezes a maioria não sustenta esta santa sociedade, entretanto… sua perversidade não pode abolir a ordem de natureza, pois que é de mister atentar para Deus, que é o autor desta conjunção. [19]

Até então, Deus mantém, na sociedade provisória, ordem relativa

Eis por que Deus, por sua providência, suscita entre os homens certa ordem, para evitar que desande tudo em confusão. Quer Deus que haja sempre algum conglomerado de homens que habite na terra. Ora, se Deus tratasse os homens segundo merecem, necessidade haveria de dilúvios todos os dias para destruí-los. Eis porque ensina ele que punirá os pecados deste mundo novo de tal forma que conservará certo semblante da terra e não consumirá as criaturas, de que a ornou, de tal maneira modera Deus os nossos juízos, tanto públicos quanto particulares que, no entanto, o mundo todo permaneça em seu estado e natureza retenha o seu curso. [20]

Para evitar, ou retardar, a destruição final do mundo revoltado contra ele, Deus preserva nos homens que o não reconhecem e que, consequentemente, não estão associados à sua igreja, as virtudes necessárias à conservação da vida social, visto que aprazível lhe é a conservação do gênero humano, que consiste em justiça, retidão, moderação, prudência, lealdade, temperança. Deus ama as virtudes políticas, não que elas mereçam salvação ou sua graça, mas porque servem a um fim que ele aprova. Neste sentido, diremos, segundo diversos aspectos, que Deus amou a Aristides e a Fabrício, e que os detestou. Uma vez que lhes havia dado justiça e retidão externas, e para o bem comum, neles amou sua própria obra, entretanto, porque o coração lhes era manchado, esta expressão externa de justiça em nada lhes serviu para adquirir real justiça. Sabe mos que nada há senão a fé que purifique o coração (At 15.9) e que o Espírito de retidão é dado aos membros de Cristo somente…  Não é, pois, improcedente que Deus ame a boa semente dele implantada na natureza de alguns e, no entanto, lhes rejeite a pessoa e as obras, por causa de sua corrupção. [21]

É também pela vontade de Deus, e por sua providência operando por Jesus Cristo, que a economia primitiva da sociedade, corrompida pelo pecado dos homens é, a despeito de tudo, mantida até o fim dos tempos. Não há pessoa tão embotada nem de tão pobre espírito, desde que se digne abrir os olhos, que não veja que é por uma admirável providência de Deus que os cavalos e os bois prestam serviço aos homens, que as ovelhas produzem lã para vesti-los, e que toda sorte de animais lhes dá sua própria carne para alimentá-los. E quanto mais evidente se nos faz este domínio todas as vezes que comemos ou fruímos de outros proveitos, tanto mais nos é de mister admirar a bondade e a graça de nosso Deus. Davi, então, não quer simplesmente dizer que o homem foi constituído dominador sobre todas as obras de Deus, por isso que se veste da pele e da lã dos animais e se alimenta de suas carnes, ou que se serve do seu trabalho naquilo em que tem necessidade deles, mas isto propõe somente por exemplo e espelho, a fim de que possa aí contemplar este domínio de que Deus o ornou… E ainda que esta feliz condição tenha sido quase inteiramente abolida no homem, em decorrência de seu pecado, contudo nele sempre restaram alguns resquícios dessa liberdade de Deus, que bastam para fazer-nos admirar-lhe a bondade. Mas, porque nesta triste e miserável dissipação não mais se vê reluzir esta legítima ordem de natureza, os fiéis, contudo, a quem Deus acolhe sob Cristo, seu cabeça, de tal maneira gozam do restante dos bens que haviam perdido em Adão, que têm bem de que maravilhar-se de que são dele tratados tão benignamente. [22]

Desta economia, embora esteja ela corrompida, Deus se serve conforme seu desígnio; ele a faz contribuir para os fins de caridade. Se isto não aparecer de modo visível na vida corrente há, no entanto, aqui e ali exemplos que servem de sinais. Devem atestar, de maneira patente, qual é o fim último da economia, tal como foi fixado na origem e tal como aparecerá com evidência no Reino de Deus.

O mais típico exemplo é aquele que o profeta Isaías nos dá em falando à cidade de Tiro. Embora seja o comércio desta cidade exercido por malfeitores que não buscam senão defraudar aos demais, seu tráfico acabará, a despeito disso, por executar-lhe o propósito, que é o serviço ao próximo… O profeta não quer dizer que os produtos comerciais de Tiro sejam santificados ao Senhor enquanto ela assim perseverar em seu desregramento; denota ele o tempo que virá após sua conversão e mudança. Então, não engendrará tesouros, não acumulará riquezas por meios ilícitos; antes, dará graças a Deus por seu afadigante labor e empregará o lucro de suas vendas em assistir os fiéis em suas necessidades. Em resumo, descreve ele o arrependimento de Tiro que, ao contrário de antes, quando estava entregue à avareza, agora, convertida a Jesus Cristo, não mais buscará acumular riquezas, bem pelo contrário, exercerá liberalidade e beneficência. E, de fato, é este o verdadeiro fruto de arrependimento como o acentua Paulo (Ef 4), a saber, aquele que furtava, não furte mais, pelo contrário, trabalhe para socorrer aos necessitados. Portanto, em vez de, como antes, devorarem os tírios as riquezas dos outros todos possuídos de insaciável cupidez, darão agora de suas riquezas a outros, pois que é um testemunho de caridade, quando ajudamos ao próximo, e de crueldade se o deixamos passar fome e, principalmente, se temos mais do que nos é necessário. [23]

Para executar seus desígnios, sustém Deus na sociedade certa ordem provisória, dando-lhe estruturas humanas hierárquicas a serem respeitadas.

Com efeito, do ponto de vista espiritual, estão abolidas as diferenças sociais que, no mundo onde reina o pecado, dividem os homens. Assim será definitivamente no Reino de Deus e assim já seria completamente no seio da igreja, neste mundo, se os homens que a compõem fossem capazes de viver permanentemente nas relações novas que Cristo estabelece entre eles. Esse, porém, não é o caso. Os crentes são ainda parte da sociedade de homens pecadores. Toda sociedade, pois, necessita, para subsistir, de uma ordem particular que venha ajuntar-se à ordem natural restabelecida por Jesus Cristo. É o que Calvino chama a ordem natural “política”. A igreja faz também parte da sociedade; esta ordem política é, pois, mantida em suas fileiras. As distinções sociais que daí decorrem são, portanto, provisória e exteriormente conservadas pelos cristãos, despojadas, no entanto, de tudo quanto as tornava desumanas e lesivas.

É a ordem “política”, de fato, que rege homens e mulheres, pais e filhos, o trabalho e as trocas

Desta ordem “política” (a ordem da cidade, a ordem da sociedade, distinta da ordem espiritual que Cristo faz reinar entre os membros da sua igreja), a organização do Estado, de que falaremos mais adiante, não constitui senão um aspecto particular. Esta ordem engloba todas as relações dos homens que vivem em sociedade; e leva em conta o fato de que estes homens, submetidos a seu pecado, têm necessidade de certa constri ção e de certa hierarquia para viverem em comunidade.

É assim, por exemplo, que a ordem normal entre o homem e a mulher que, fundamentalmente, diante do Senhor, é uma relação de igualdade, se transforma, na sociedade provisória, em uma relação hierárquica. E necessário, para que reine a ordem, que nela haja uma preeminência. Não cabe à igreja suprimir esta ordem externa ou política, pretextando liberdade cristã e igualdade espiritual. Não pode ela deixar de propor aos esposos viverem em igualdade, respeitando voluntariamente a ordem exterior que lhes é necessária para viver em sociedade.

E o exemplo do homem e da mulher é válido para todas as outras  formas de relações sociais hierárquicas, entre pais e filhos, mestres e servidores, soberanos e súditos. Vimos acima como cada um de nós é sujeito ao próximo e não podemos de outro modo interagir uns com os outros, senão prestando algum serviço como em sujeição. E ainda que isso nos desagrade, segundo anseie cada qual por estar acima de seus pares, e em tal recomendação temos esta altivez que nos é difícil humilhar-nos, temos também visto que, se tememos a Deus, não temos como achar estranho o estarmos sujeitos ao próximo, pois que nesta condição nos criou Deus. Eis, então, em geral, como a caridade nos obriga uns para com os outros, de tal maneira que não há desdenharmos a este, estarmos amuados para com aquele, julgarmos a outro indigno de que se lhe faça favor, pois que, atentando para Deus, é necessário que abaixemos o pescoço, doutra sorte nossa rebeldia nos arrastará à ruína. Ora, Paulo vai além e mostra que há certas gradações entre os homens. Pois, se bem que há, em geral, esta regra que mencionamos (que cada um se disponha a cumprir com sua obrigação), há não menos, em particular, sujeição maior do filho para com o pai, da mulher para com o marido, dos subalternos para com os superiores, do que há entre todos os homens indiferentemente. Temos reiterado com insistência que, uma vez que há uma natureza comum a todos e que cada pessoa se deve conhecer obrigada para com os outros, há uma fraternidade até mesmo entre aqueles que mais estranhos parecem neste mundo. Quando, porém, Deus uniu as pessoas de um vinculo mais estreito e mais sagrado, impõe-se que mais de perto atente cada um para si. Desse modo, quando é a mulher unida a seu marido, ela lhe é dada como ajudadora e lhe é como que parte do corpo. Mas há, também, sujeição especial, que o marido, embora seja superior em autoridade, isto, no entanto, não impede que ele tenha obrigações para com a esposa, por isso que ela lhe é companheira para a vida e para a morte. Assim é também em relação aos filhos para com os pais e aos pais para com os filhos, cada um em sua condição e qualidade, como dos súditos para com os príncipes e superiores, e os servidores para com seus mestres. [24]

A autoridade dos pais sobre os filhos é, pois, legítima, entretanto, condicionada pelo serviço que os pais são chamados a prestar aos filhos. Mas, além de que a conhecemos naturalmente, Deus acrescenta ainda para confirmação mais ampla sua vontade, e nos mostra que ele a ordenou, e assim estabeleceu, e que nos importa acatar. Quanto, pois, entendemos que Deus nos mantém em sujeição a pais e mães, certo é que tanto mais inescusáveis somos, se não se conduza cada um com modéstia e humildade. Em contraposição, mostra ele qual o dever dos pais e mães, isto é, de tratar humanamente aos filhos  de serviço naturalmente, Deus acrescenta ainda que a conhecemos ampla sua vontade e nos mostra ele qual o dever dos pais e mães, isto é, de tratar humanamente aos filhos. Não de ser-lhes indulgentes, ou de soltar-lhes as rédeas e deixá-los fazer tudo quanto queiram; que, porém, há, o que quer que seja, uma tal moderação que se lhes não faça perderem o ânimo (tal como o diz em outro lugar), antes, que os nutram no temor de Deus. Com esta palavra nutrir, Paulo subentende que os tratem com doçura e se lhes mostrem amorosos. Mas, esta palavra tem também (como se diz) seu molho, isto é, que aí subsistem igualmente disciplina e correção de Deus. Há, então, a nutrição, de um lado, isto é, a humanidade e a doçura e, de outro, há a correção e a disciplina, isto é, que os filhos sejam mantidos em rédea curta e que os pais não permitam que sejam dissolutos nem depravados; antes, pelo contrário, que de tal modo os instruam no temor de Deus, que saibam os filhos que Deus os não há desprovido de governo e de direção, que lhes deu, ademais, superiores que a vida lhes regulem. [25]

O domínio por excelência onde certa hierarquia deve estabelecer-se é o do trabalho. Embora, no fundo, não haja na comunidade cristã diferença essencial entre mestre e servidor, a ordem social permanece válida enquanto subsiste a vida em sociedade. Dos subordinados requer-se uma obediência voluntária, que não seja somente exterior e superficial, mas fundada sobre o reconhecimento da vontade de Deus. A razão por que ele se delonga mais em exortar os servidores é que, uma vez que sua condição é fastidiosa e dura, é ela também difícil de suportar. E não fala somente dos serviços externos, mas, antes, de um temor espontâneo, porque não é coisa que se vê muito, que se submeta alguém de bom grado às ordens de outrem. E diz que estão a obedecer a Deus quando servem fielmente a seus mestres, como se estivesse a dizer: Não penseis que sois assim postos em servidão pela disposição dos homens. É Deus quem vos pôs este fardo sobre os ombros, que arrendou vosso labor e indústria a vossos mestres. Desse modo, aquele que, em boa consciência, diligencia por fazer a seu mestre o que lhe é da obrigação, não apenas cumpre o seu dever para com o homem, mas também para com Deus. Eis, na verdade, linda consolação a todos quantos estão em sujeição: quando servem de bom grado a seus mestres, seus serviços são tão agradáveis a Cristo quanto se fossem feitos a ele próprio. [26]

Legitimidade e limites das hierarquias sociais

A igualdade espiritual que reina e impera na igreja não suprime, pois, a legitimidade de uma ordem política e social provisória onde as funções são diferenciadas e hierarquizadas. Calvino, com o evangelho, insiste no dever dos subordinados cristãos de não procurarem tirar proveito da fraternidade que une os membros da igreja, para subtrair-se à obediência que devem a seus superiores, sob pretexto de que são eles irmãos em Cristo. Assim, então, notemos bem que este rótulo de fraternidade não deve encher de presunção aqueles que são de baixa condição, desprezíveis segundo o mundo. Que se não levantem eles a alegar: Fulano é meu irmão, pois que, a despeito disso, Deus lhe deu também outro parentesco. Somos irmãos, mas isto não impede que um seja senhor, outro criado, que um seja pai, outro filho, que um exerça o oficio de magistrado, outro seja um cidadão privado. Assim, pois, reconheçamos nossa ingratidão e maldade em que inclinado seria cada um de nós a menosprezar aqueles que devem dominar por sobre nós, a pretexto de que nosso Senhor nos uniu em um todo conjunto. Esta sagrada união que Deus estabeleceu entre nós, falo de fraternidade, uma vez que nós o invocamos todos, a uma, como nosso Pai, não impede que aí haja um inferior, outro superior, que de mister seja que, segundo aqui no-lo mostra Paulo, conformados permaneçamos na condição a que Deus nos chama. [27]

E a obediência que é devida às diversas autoridades da ordem social não depende de seu maior ou menor valor pessoal. Em obedecendo a seu superior, é a Cristo que obedece o cristão e, vendo a Cristo além de seu superior, não há pretextar os defeitos deste para recusar-lhe obediência… Contudo, observemos também que, algumas vezes, suscitará Deus pessoas que não são dignas de nenhuma honra. E por quê? Para despique. Se lhe fossemos sujeitos como devemos, certo é que de tal modo sobre nós dominaria ele, que poderíamos visualizar que ele nos governa e preside entre nós, que aqueles que exercem funções de justiça seriam pequenos anjos, que se não veriam reis nem príncipes neste mundo do minarem em tirania, nem em prepotência, mas a imagem de Deus neles refulgiria; entretanto, por isso que alijamos a Deus para longe de nós, não há senão retrair-se ele, e detrair-nos sua bênção, e suscitar para que sobre nós domine, gente que perverta a todo direito e equidade. É isso então, um sinal de que Deus de nós retirou sua graça, por isso que não nos havemos querido ser sujeitos. Seja, porém, como for, a isso retornamos sempre, que nosso Senhor bem sabe o que é próprio. Pois que assim é, cuide cada um de não ultrapassar seus limites. O pobre, que abaixe o pescoço, e reconheça que Deus o quis colocar em posição subalterna, e que por este meio mostremos que somos, de fato, seu rebanho, que não somos animais selvagens, que não somos tão difíceis de governar, que não resistimos a que nos conduza como lhe aprouver, e que de nós disponha de tal maneira que, por mais subalterna que nos seja a condição, ou desprezada do mundo, a suportemos pacientemente. [28]

Não há, neste mundo, homem que tenha qualquer posição de autoridade, que não lhe tenha sido dada por Deus, qualquer que seja o uso que faça dela. Não há duvidar de que o Senhor aqui estabelece uma regra universal: é que segundo reconhecemos ser-nos alguém por ele constituído superior nosso, rendamos-lhe honra, reverência e amor e lhes prestemos os serviços que possíveis nos sejam. E não há considerar se nossos superiores são dignos dessa honra ou não, pois que, o que quer que sejam eles, não chegaram sem a vontade de Deus a esta posição em função da qual o Senhor nosso nos ordena honrá-los. [29]

Mas, por isso que, em obedecendo a seu superior, obedece ele, em primeira plana a Jesus Cristo, o cristão a homem algum deve obediência incondicional. O subordinado fiel jamais obedece a qualquer autoridade, quando esta lhe ordena qualquer coisa que se não conforma à vontade de Deus. Há no entanto, a exceção: que os servidores agradem a seus mestres em todo bem. Se um servidor, para agradar a seu mestre, quer ser seu esbirro, que a um bate, a outro esbofeteia, pilha, rouba, blasfema a Deus: vê-se que nisso pervertido tudo estará. Notemos bem, então, quando se fala em graus, que Deus se reserva sempre sua autoridade e que não deixa seu posto. Se, pois devem os servidores obedecer a seus senhores, não o é senão no bem. Retenhamos, então, que, se queremos ser sujeitos aos homens, não equivale a dizer que seja diminuído o direito de Deus e, assim, impedido; pelo contrário, devemos ser tanto mais estimulados a servir a Deus. [30]

A autoridade dos superiores não é jamais ilimitada. Quem exerce uma função está a serviço de seus subordinados e não de seu próprio proveito. Deve igreja recordar a todos quantos exercem autoridade na vida social que, se o direito humano lhes dá, geralmente, uma situação privilegiada em relação a seus subordinados, espiritualmente, têm para com eles obrigações inalienáveis. Não basta jamais a um cristão ter o direito a seu favor; não lhe basta observar os contratos; deve ainda considerar a seu subordinado no amor de Jesus Cristo. Muitos interpretam ser-lhes lícito tudo que seja costumeiro segundo o direito civil… Deus aos mestres não mais permite que o que lhes permite a regra da caridade. Até mesmo as melhores convenções, que se não baseiam senão na comum utilidade, não podem ter o lugar de regra suficiente. Atentam eles somente para a utilidade, isto é, consideram o que é proveitoso… Paulo, aqui, toma princípio e fundamento bem outros, pois que está prescrito o que lhes é permitido segundo a ordenança de Deus, e mesmo em que é que são eles devedores aos que o servem… Verdade é que a condição do senhor e do servidor não é a mesma; entretanto, há certo direito mútuo entre ambos, direito que, como cria obrigações do servidor para com seu senhor, também cria obrigações… do senhor para com seu servidor, guardada, contudo, a devida proporção. Os homens medem mal esta analogia, porque não a compreendem segundo a regra da caridade, que é a única verdadeira medida… Somos muito naturalmente inclinados a exigir o que nos é devido; quando, porém, de nossa parte, é preciso que façamos nossa obrigação, não há sequer um que não se esforce por isentar-se. E, singularmente, este modo tão desarrazoado de proceder reina entre aqueles que desfrutam de mais poder e são constituídos em maior honra e dignidade. A conduta dos senhores, a despeito de sua legítima autoridade, deve ser, pois, condicionada pelo fato de que são dependentes de Cristo; seu poder não é jamais absoluto. Não o possuem senão por delegação de Cristo. Afirma aqui Paulo, ao contrário, que bem desabusados são os senhores se pensam que seus servidores são vis e de nenhuma importância diante de Deus, porque assim considerados diante do mundo. Deus não faz acepção de pessoas, isto é, não leva em conta a aparência externa, e não valoriza menos a causa daquele que seja o mais abjeto de todo o mundo que a causa do mais poderoso rei. [31]

E da mesma forma que a fraternidade, que reina obrigatoriamente em toda comunidade cristã autêntica, longe está de dispensar os servidores de obedecer aos senhores que lhes são irmãos na fé, a legítima função dos superiores cristãos não os dispensa de reconhecer, em seus subordinados, irmãos que lhes são iguais. E agora que somos renovados por sua graça e por seu Santo Espírito também feitos criaturas celestes, em lugar de sermos filhos de Adão plenos de maldição, de mister será que haja qualquer desprezo ou desdém, e que o rico olhe de esguelha aquele que lhe é inferior? Ou impor-se-á que aquele que ocupa uma posição de destaque se mire em suas plumas como um pavão e se alteie como se os outros de nenhum valor fossem? Ora, é isso retrancar-se do corpo de nosso Senhor Jesus Cristo; é isso renunciar a esta eleição pela qual fomos adotados para sermos da casa de Deus e reconhecidos como seus filhos. [32] [33]

Dinamismo do impulso reformista cristão

Pode parecer que a moral social reformada seja favorável à conservação de uma ordem social estática. Não o é. O evangelho, ao contrário, é uma força dinâmica, sempre tendendo a reformar a ordem para transformá-la em uma ordem mais justa, pois que, não importa qual ordem, está sempre em vias de corromper-se sob o efeito do pecado.

Por exemplo, se aos superiores são devidos obediência e respeito, não quer isto dizer que devam ser eles mantidos em suas funções quando não são dignos delas; pelo contrário, preciso é eliminar os incapazes. Eis, digo, como devemos estimar dignos de toda honra aqueles a quem Deus eleva a posição superior, bem que em suas pessoas muito possamos achar que mereça censura, pelo que devessem ser menosprezados. Em suma, convém-nos aqui não ter em conta os vícios que se mostram nas pessoas, a fim de que isto em nada derrogue da ordem de Deus e nenhum preconceito lhes acarrete. O que digo não é para fazer que os vícios sejam nutridos, nem acoroçoados…  Mas é preciso, no entanto, velar a este respeito, e que aqueles que vivem escandalosamente sejam expungidos. Quando, também, houver pessoas em posições de autoridade que sejam corruptas, e que, assim, maculem a seu cargo, é bem necessário que a isso se remedie tanto quanto possível seja; contudo, impõe-se-nos ter esta consideração, que cada um em seu particular deve obedecer àquele que Deus tenha assim constituído em honra… Não é digno disto, mas, porque assim apraz a Deus, eis o que levo em conta e de que me satisfaço.[34]

Por outro lado, a subordinação livremente consentida não é sinônimo de passividade. O princípio fundamental da Reforma, do ponto de vista profissional e social, é que siga cada um sua vocação. O Estado de perfeito equilíbrio da sociedade seria atingido se cada um ocupasse, de bom grado, o lugar a que Deus o chama. Ora, se alguém se sabe chamado a uma função ou encargo superior, que não hesite em seguir a esse chamamento. Esta é a fonte de que todo o resto depende, a saber, que esteja cada qual contente com sua vocação, que a siga, que não esteja inclinado a buscar uma outra. Vocação no Espírito significa um estado e maneira de viver legítimos… Pode-se, porém, aqui perguntar se Paulo quer estabelecer uma obrigação e necessidade. Parece proceder que isto denotam as palavras: Que é cada um obrigado à sua vocação, assim que não a pode abandonar. Ora, seria isto  coisa demasiado rigorosa, que a um sapateiro não fosse defenso aprender um outro ofício, e ao mercador entregar-se ao cultivo da terra? Respondo que não é essa a intenção do Apóstolo. Quer ele simplesmente corrigir a propensão inconsiderada de que certos são movidos a mudar de estado sem justa causa, seja que o façam por superstição, seja por algum outro motivo qualquer. Mais, a esta regra conduz ele a cada um, a saber, que tenham sempre em lembrança o que é próprio e conveniente à sua vocação. A ninguém impõe obrigatoriamente de ater-se à maneira de viver que haja uma vez empreendido; antes, pelo contrário, condena esta inquietude que impede cada um permaneça tranquilamente em sua vocação e em serenidade de consciência e quer que se aplique cada um fazer valer o a que foi vocacionado. [35]

A fé reformada, então, envolve uma promoção social contínua, em todos os níveis da sociedade, é exatamente oposta a toda estagnação ou conservadorismo social de princípio.

Enfim, a hierarquia política, de que tornaremos a falar mais adiante, deve ser respeitada. Qualquer que seja a forma das instituições do estado, os magistrados devem ser tidos e havidos como cumprindo um encargo da parte de Deus; seus jurisdicionados devem, por isso, obedecer-lhes e respeitá-los, nos limites que definiremos em outro lugar. Tendo-os assim em honra e reverência, eles [os cristãos] devem sujeitar-se-lhes em toda obediência, seja em se tratando de obedecer-lhes às ordens, seja em questão de pagar-lhes impostos, seja na necessidade de exercer qualquer função pública atinente à defesa comum, seja que se impõe acatar certas determinações. [36]

Há até mesmo certa desigualdade material que é justificada, em certa medida, para assinalar a posição na hierarquia social. Vemos que Davi, Ezequias, Josias, Josafá e os demais santos reis, assim como José, Daniel, sem ofensa de consciência, viveram suntuosamente do erário público, segundo a posição em que estavam colocados. Mais até, lemos em Ezequiel que grandes posses foram outorgadas aos reis pela ordenança de Deus (Ez 48.21), passagem da qual, embora esteja a descrever o reino espiritual de Cristo, tira, todavia, o padrão correto e legitimo de um reino dos homens. [37]

A indispensável e ousada liberdade da pregação

Legítima é, pois, certa ordem hierárquica da sociedade. Esta ordem, entretanto, não deveria jamais ser tida como absoluta. É uma ordem inteiramente humana e provisória, que não abole a igualdade fundamental dos seres humanos, tal qual foi ela restabelecida em Cristo. [38] Em face desta hierarquia legítima, deve a igreja conservar a liberdade e a autoridade que lhe são dadas pela Palavra de Deus. Calvino cita a este propósito o exemplo de João Batista: Um belo exemplo da constância que devem ter os fiéis doutores, para que não temam irritar os grandes e os poderosos do mundo, cada vez que de mestre se faça.

Os homens de sua natureza são tímidos. E eis por que se arria a vela quando é questão de chamar os grandes à conta, os quais podem morder e arranhar, porque irritá-los é como atirar-se na sepultura. É, pois, necessário que Deus opere naqueles que ele envia a fim de dar-lhes firmeza para se não dobrarem e não fazerem acepção de pessoas. Isto houve em João Batista. Temos comprovação de que ele foi conduzido e governado pelo Espírito de Deus. De sorte, mesmo aqueles que mais ousados são, mostram, alfim, e põem a descoberto sua flacidez. Quando, porém é questão de algum entrechoque, lançarão suas baforadas e espumas ao primeiro embate, isto é, quando estarão longe dos golpes; quando, porém, chega o momento de entrar na refrega, ei-los transidos, de tudo mudados. Ou, então, quando se tem firme postura, e se não arria a vela bem que para cumprir com o dever há-se de provocar os maus, e se tem de correr risco e sofrer perigo, dada a sua audácia, quando, pois, assim se persevera, é sinal de que se é conduzido pelo Espírito de Deus. [39]

2.4 O fim da História

Alvo e fim da sociedade

Toda esta ordem social relativa necessária à conservação da sociedade, não menos que a ordem parcialmente restaurada na igreja, não tem valor nem fim em si. Não existem, uma e outra, senão em vista da vinda definitiva do Reino de Deus. Não têm, pois, até lá, senão uma existência provisória. E toda a história humana se desenrola na expectação desse evento.


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